Reli o “me sinto o ser humano mais miserável e asqueroso do mundo”, que escrevi há dois anos. Achei bem pesado e anormalmente íntimo, nunca tinha comentado de algo tão pessoal “publicamente”. Fiz isso para relembrar o que eu sentia, e felizmente as coisas mudaram, só não o suficiente. Eu fico todos os dias, o dia todo, pensando sobre aparência. Esse é um dos tópicos mais sensíveis para mim. O meu maior sonho é ser uma mulher bonita, mais importante do que qualquer outro objetivo meu, e o que vai ser mais destruidor se não acontecer.
Eu me amo muito, tenho muito orgulho de quem me tornei e do que conquistei. Do quão amável e curiosa eu sou. Me sinto um cristalzinho em meio a uma terra devastada. Por um lado, minha autoestima é gigante, sem egocentrismo, me sinto como uma das coisas mais preciosas da terra. Minha infância aconteceu longe da violência, traumas, pobreza e conflito. Pude ser uma criança ingênua, sonhadora e pura. Isso fez eu ser a pessoa amorosa, leal, otimista e colorida que eu sou. A ponto de ser apelidada de Bob Esponja por algumas amigas. Mas tem só uma coisa que me joga para baixo, que me faz sentir um ser humano inferior: minha aparência. Nunca me senti genuinamente bonito. Sei que já fui sexualmente atrativo para algumas pessoas, mas sei também que tô longe do ideal de beleza, e que só fui desejado por pessoas com um gosto estético bem diverso e abrangente, e eu não quero isso. Beleza é relativa, mas eu não quero que a minha seja. Quero ser abordada na rua. Que as pessoas se masturbem com a minha foto. Que me desejem. Que nem acontece com minhas amigas.
Recentemente assisti "The Elephant Man", do David Lynch. Criei uma conexão gigante com o Joseph Merrick, um homem do século XIX que, graças a uma doença congênita, tinha o corpo todo deformado. Que nem ele, também me sinto menos que um ser humano, também me sinto amaldiçoada pelo corpo que ganhei. Percebo como as pessoas modificam as frases delas para não me chamarem de bonita, como nunca me elogiam e como não me consideram no mesmo nível que elas. Não as julgo, eu não sou mesmo.
Minha maior esperança é minha hormonização. De vez em quando eu olho no espelho e me sinto com o rosto um pouco mais feminino, gosto do que eu vejo. Mas, sempre que isso acontece, eu já corto minha felicidade. Sei que deve ser só impressão minha, e que basta sorrir que eu já percebo como não sou esteticamente agradável. São pouquíssimas as fotos em que eu não me sinto mal olhando para mim mesma. Sei que sou um homem nada atraente. Mas, ao menos, isso me dá esperança de que, como mulher, eu consiga ser. Ainda vão demorar vários meses até que os hormônios mudem drasticamente minha aparência, mas sou otimista. Amigas minhas já falaram como eu tenho tudo para ser uma linda mulher trans. Sou pequena, magra, jovem e com uma bunda empinada. Sinto que, com a academia, os efeitos dos hormônios e um ganho de peso, vou conseguir me tornar quem eu sonho. Nem que eu tenha que ir para métodos mais extremos e fazer cirurgias.
Eu tinha muito preconceito com cirurgia plástica. Não queria parecer artificial, me render aos ideais estéticos, “mutilar” meu corpo. Mas, sinto que essa batalha não é para mim. Meu padrão de beleza já tá corrompido pelo ideal branco e cis. Quero poder me abster da luta trans, viver como uma mulher cis, ter a segurança de uma mulher cis e ser como as minhas amigas. Se elas fazem procedimentos estéticos pesados e são consideradas super bonitas, por que eu não faria? Eu me esforço tanto para aprender a ser bonita, e ainda tô tão atrás. Não vou desistir, eu preciso saber o que tem no fim desse caminho. Vou fazer tudo que eu puder para alcançar meu sonho, e aos poucos tô sempre melhorando. Não consigo imaginar como será minha vida se isso não acontecer. A única coisa que eu posso fazer é continuar andando e aproveitar que estou cercada das melhores pessoas do mundo, que me amam. Eu sou feliz porque sou amada.