Desde por volta do começo da minha adolescência, minha relação com meus pais foi cada vez mais se degradando. Mas, sinto que a pior fase ainda não chegou. Tenho um terror e uma curiosidade enorme de saber como vai ser o momento em que eles descobrirem que sou trans, a coisa que eles mais abominam. Pelo menos, vai ser bom eles sofrerem daquilo que eles mais julgam. Uma vingança perfeita.
Meus pais não foram sempre pessoas ruins. Eu tenho, mesmo que pouquíssimas, memórias boas com eles. Lembro de voltar para casa do jardim de infância a pé com meu pai, ele me comprava um sorvete napolitano ou merengue para irmos comendo no caminho enquanto conversávamos. Também ia com ele ao trabalho, viajando para vários cantos do estado. Com minha mãe, íamos constantemente ao shopping, seja para ir ao cinema ver alguma animação ou almoçar por lá. Por volta de 2014, acho que foi o último período em que eu tinha algum momento feliz em conjunto com eles.
Meus irmãos me contam que meu pai era outra pessoa. Ele era um grande leitor de filosofia, uma pessoa relativamente de esquerda e que tinha uma certa intelectualidade. Hoje em dia, ele só “se informa” pelo ChatGPT e Grok, além de vídeos curtos do Instagram e YouTube Shorts. O chorume da informação. É bizarro pensar isso, mas meu pai foi a inspiração para meu irmão cursar faculdade de filosofia. Agora, falando com ele, é bizarro o como ele está o completo oposto: uma desonestidade intelectual gigantesca; uma aversão a qualquer informação que discorde da dele e um ego bizarro. Tudo isso quase que inconscientemente.
Minha mãe também não é muito melhor que isso. Ela segue o que meu pai fala e é ignorante para ter alguma autonomia e um senso crítico. Ela, diferente dele, realmente me ama; coisa que não me atrai muito, já que ela, pelo que meu irmão me falou, é meio narcisista e tem a vida toda baseada nos filhos. Sem individualidade alguma.
A maioria das minhas amigas tem problemas com os pais. Mas do lado paterno mesmo. Sinto uma certa inveja quando as vejo tendo bons momentos com suas mães. Sinto inveja também quando vejo, no ônibus, filhos com seus pais se dando bem. Fico feliz por eles, mas realmente sinto falta, vendo o que eu poderia ter tido numa realidade diferente. Para não falar que tudo é horrível, tem apenas uma coisa que realmente é boa deles: o dinheiro. Não quero parecer uma interesseira falsa e perversa, estou só sendo interesseira mesmo. Toda a convivência com eles é terrível, tirando a parte em que eles pagam as contas e eu consigo um relativo acesso a consumo com meu salário.
Isso já me causou culpa. Mas, percebi há um certo tempo o quão mal eles me fazem, e principalmente na total paranoia naturalizada que eu vivo em casa. Eu escondo todas as informações possíveis da minha vida; tenho várias amizades falsas que uso para mentir sobre onde eu estou indo; nunca conto sobre quando estou triste ou qualquer momento feliz e marcante que eu tive na vida. Tenho também um terror absurdo de eles verem o que eu assisto no computador ou no celular, mesmo coisas banais. Porque tudo pode ser um gatilho para uma briga, julgamento ou ameaça. Até percebi recentemente como, por eles sempre me aterrorizarem, tenho uma ansiedade e um medo absurdo de experimentar roupas. Qualquer peça minimamente diferente que eu uso já me causa uma ansiedade e um pânico enorme, por achar que todas as pessoas na rua vão, quase como num pacto velado, me achar horrível, sem me contarem. Por isso tenho uma busca de validação imensa das outras pessoas, mas aos poucos estou quebrando isso e me sentindo bem comigo mesma. Todo o modo como eu ajo em casa é falso, performático e muito automático já. Apenas com o intuito de sobreviver àquele ambiente, até o grande dia em que eu vou deixar eles para trás e poder ser eu mesma.
Toda essa transformação deles se deu por um motivo: meu pai se converteu para uma seita de extrema-direita. Todo dia ele aparece com alguma teoria da conspiração nova. Uma opinião mais nojenta e filha da puta do que a outra. Citando coisas como: “o mundo é comandado por uma nova ordem mundial globalista, pedófila, comunista e satânica” e “machismo é algo bom”. Além de seguir ideólogos fascistas que defendem a existência de partidos neonazistas, que mulheres não deveriam estudar e que vacina é algo do diabo para mudar nosso DNA. Por isso também que eu me radicalizei tanto politicamente. O Comunismo e o Black Metal foram os meios que me deram a possibilidade de lutar contra essas ideias. Se não fosse o meu irmão conversar comigo e me acolher, eu seria um ser humano horrível igual a ele, e, em partes, eu fui.