e num é que eu sou trans?..

Por volta dos meus 13 anos, na época em que eu ainda era bolsonarista, foi a primeira vez que senti que havia nascido no corpo errado. Felizmente, meu cérebro fez de tudo pra apagar a maior parte das minhas memórias desse período, então não vou comentar muito mais sobre isso por enquanto.

A partir do ensino médio, comecei a felizmente ter cada vez menos amizades masculinas. Não que todas sejam ruins, mas é MUITO difícil encontrar uma boa. O jeito como essas relações normalmente funcionam, e que me enoja muito, é o fato de nunca poder expressar o mínimo sentimento. Todas as piadas se baseiam em um ficar xingando o outro, e eu tenho pavor disso.

Comento isso porque mostra que, já naquela época, eu comecei a me afastar desses padrões masculinos. Mas tudo isso explodiu neste ano, quando a questão da aparência começou a se tornar importante pra mim. Desde 2023, meu maior sonho na vida é ser bonito. Comecei a comprar roupas, produtos de beleza e a desenvolver meu gosto estético, idealizando como gostaria de ser. Mas eu percebia que nunca conseguia me encontrar, nunca conseguia achar uma figura masculina que quisesse imitar. A primeira vez que consegui foi com o Orochinho haushuashua, mas pouco tempo depois isso mudou, porque senti que, mesmo achando ele bonito, não era exatamente o que eu queria.

A ficha caiu quando assisti Metropolis (1927), na cena dos Jardins Eternos, onde aparecem aquelas mulheres com roupas extravagantes e maquiagem da época. Fiquei absolutamente fascinado e entendi que não era só porque eu gostava de mulheres, mas porque queria ser como elas.

Depois de algumas conversas com minha amiga Niko pelo Twitter, fui percebendo cada vez mais que eu era trans, mesmo que, em parte, eu já soubesse, mas não tinha me entendido completamente como um. Fui percebendo que esses elementos masculinos cada vez mais não me representavam e, na verdade, me causavam repulsa.

Uma coisa que me dói é ver amizades femininas, elas tendem a ser muito mais íntimas, a se apoiar e se elogiar muito mais. E por ter sido amaldiçoado a nascer desse jeito, se eu tentasse ter uma amizade assim, pareceria que estou assediando ou dando em cima.

Infelizmente, o que mais me mata de inveja é a questão da aparência. Toda hora eu entro no ônibus e vejo mulheres com as características que eu queria ter: as roupas, os traços, o formato do corpo, o cabelo, TUDO. E com isso vem toda aquela sensação horrível de saber que nunca vou poder ser assim, no máximo se eu morresse e existisse reencarnação ou sei lá que porra.

Falando com a Niko, ela comenta sobre transição, mas eu não tenho nenhuma esperança de conseguir realizar. Meus pais são dois malucos de extrema-direita, eu ganho muito pouco e não tenho expectativas de conseguir um emprego em que eu ganhe bem pra arcar com hormônios, procedimentos estéticos e afins. Além do medo de que, quando conseguir fazer, já seja tarde demais, e no fim eu não consiga parecer feminina, acabando só por ficar estranho.

Meu plano agora é tentar ficar o mais andrógeno possível, assim não sofro tanto preconceito e consigo me sentir ok. Mas, até lá, eu só consigo sentir inveja e ódio, por saber que fui condenado a ser a pior versão do ser humano. Odeio admitir que o maior sonho da minha vida é me sentir bonito. Eu abandonaria todos os meus outros objetivos só pra alcançar isso, e, pelo menos nesta fase da vida, não consigo ver nenhuma forma de realizar ele.

Não quero que a impressão geral desse texto seja de coitadismo. Eu me amo, tenho orgulho da pessoa que me tornei, me considero uma boa pessoa e, às vezes, até engraçado. Se isso não fosse verdade, eu não teria amigas tão fodas :). Então, tudo que tá dentro da minha cabeça eu absolutamente amo. Infelizmente, o resto não, mas tenho esperanças de que vou conseguir me encontrar em algum momento da vida, seja como mulher ou apenas como não-binário.